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Soberania alimentar para nos elevar


Soberania alimentar para nos elevar

por Anna Prêta em 15/05/2023


No últimos meses do meu segundo casamento, em dezembro de 2017, tive a oportunidade de ir até o Peru para conhecer Cuzco e suas circunvizinhanças tão antigas quanto misteriosas. Dentre muitas coisas interessantíssimas, uma me chamou a atenção e acredito ser o ponto de partida perfeito para o tema do presente artigo: o modo como o povo Quechua mantinha bem nutrida uma população tão grande.


A solução era nada mais que trabalhar junto com a Natureza, e não contra ela. Havia um laboratório de sementes em degraus que representavam as diferentes condições de cada parte do território, e ali as de melhor desempenho em cada tipo de solo eram enviadas para as localidades correspondentes para que fossem cultivadas e, após colhidas, partilhadas com as demais cidades. Assim, todo mundo tinha acesso a tudo.


O mesmo acontecia com os outros artigos: produções têxteis, metalúrgicas, artísticas, etc. tinham todas o mesmo valor de servir à manutenção dos modos de vida do povo Quechua. A paga pelo trabalho de plantar e colher era, além do acesso à comida, o acesso ao que todas as outras pessoas também produziam e ofereciam no quotidiano das trocas que envolviam também dinheiro — mas não incluíam a usura.


A comoditização da alimentação e de tudo o mais que seja vital deixa rastros de morte. Um deles é o nutricídio (melhor trabalhado por Alisson Machado em seu artigo Nutricídio, publicado no portal do Núcleo de Extensão da USP sobre alimentação sustentável).


Outro — menos óbvio, porém — são as guerras declaradas a plantas sagradas como parte do esforço colonial em si, conforme detalha o Professor Satadru Sen, da Purdue University (Estados Unidos), em sua resenha sobre a obra Loucura, Cannabis e Colonialismo (London, St Martin's Press, 2000): "encarceramento e intervenção médica na Índia do Século XIX estavam fundamentalmente implicadas no esforço Britânico em criar uma sociedade colonial mais governável" ao mesmo tempo em que leis restringiam direitos.


No esforço para colonizar terras, corpos e mentes, o Império Britânico editou o Contagious Diseases Act (que encarcerava mulheres acusadas de portador doenças altamente contagiosas), o Criminal Tribes Acts (que retirava povos de suas terras e os enviada a campos de concentração divulgados como "manicômios", "asilos" ou "locais para tratamento") e políticas de vacinação compulsória em massa. Soa familiar?


Por isso a reação da comunidade usuária dos serviços de saúde mental à fala do Presidente Lula sobre "pessoas loucas" foi tão forte: porque produzir loucura para intervir, alienar e expropriar mentes, corpos e terras é uma tática colonial já provada pela História.


E por tudo isso são tão importantes parcerias como a do Bahia Sem Fome com o Governo do Estado da Bahia, que priorizam a nutrição e a vida como armas adequadas para combater a tragédia atual de sermos um país que produz alimentos para outros enquanto abandona seu Povo à fome.


Os dados demonstram a importância de seguirmos outros modelos de desenvolvimento: conforme nos informa Josimar Gonçalves de Jesus em seu artigo Desigualdade, insegurança alimentar e fome no Brasil, para o Jornal da USP,


De acordo com dados do IBGE, acompanhando a redução da pobreza, entre 2004 e 2013, a proporção da população brasileira em situação de insegurança alimentar grave, diretamente associada com a fome, caiu de 8,2% para 3,2%. De 2013 a 2018, com a piora das condições econômicas, a insegurança alimentar grave aumentou para 5%, mas existem evidências de que essa cifra já esteja muito maior, como mostra o II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, publicado em 2022 pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).


O site da Rede Penssan nos encaminha para o portal Olhe Para a Fome, onde se encontram os dados mais recentes: entre a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República em 2018 e a sua derrota pelo voto popular em 2022, aproximadamente 16,5% da população se encontra em situação de insegurança alimentar. O percentual equivale a 33,1 milhões de pessoas. Talvez tenhamos mais a aprender sobre o povo Quechua do que apenas seus monumentos indecifráveis em pedra…



Mais de 33 milhões de pessoas sem ter o que comer em 2023
Fonte: Minha Cesta

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